Causou desconforto no setor de energia a ampliação da área de influência da hidrelétrica de Itaipu no lado brasileiro. A região com direito a receber projetos socioambientais e de infraestrutura passou de 55 para 434 municípios, levando o gasto para quase R$ 1 bilhão (US$ 193,9 milhões).
A expansão sustenta a criação do programa "Itaipu Mais que Energia" para atender todos os 399 municípios do Paraná e outros 35 de Mato Grosso do Sul. Regiões onde o PT não tem força política.
O diretor-geral de Itaipu, Enio Verri, também anunciou R$ 600 milhões, em três anos, para a conclusão da UNILA (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), o que fecharia R$ 1,2 bilhão em investimentos na região neste ano.
Pessoas próximas ao PT contam que Verri foi escolhido para fazer uma espécie de revisão na linha de trabalho da usina. Ele deve colocar Itaipu na cena política com a ajuda do atual conselho de administração, que tem cinco ministros, o que também é visto como uma forma de alinhar a gestão a diretrizes do governo federal. Além da cadeira cativa reservada ao ministro de Relações Exteriores —ocupada por Mauro Vieira, estão Rui Costa (Casa Civil), Fernando Haddad (Fazenda), Esther Dweck (Gestão) e Alexandre Silveira (Minas e Energia), todos do PT.
Ex-deputado federal pelo PT, Verri conta com apoio de Gleisi Hoffmann, presidente do partido, para ocupar o posto e tem feito inúmeros contatos. O que se conta nos círculos políticos do Paraná é que ele estaria se preparando para disputar o Senado ou mesmo entrar numa chapa ao governo do estado na eleição de 2026.
O que incomoda os especialistas da área de energia é que o dinheiro de Itaipu sai da conta de luz dos brasileiros.
Estudo realizado na gestão passada mostra que, com o fim da dívida, o custo de geração da energia de Itaipu deveria ter caído para algo entre US$ 9 e US$ 10 por kW (R$ 43,63 a R$ 48,50 por kilowatt). A gestão de Bolsonaro fixou para este ano o valor de US$ 12,67 (R$ 61,42), mas sem negociar com os paraguaios. A gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assumiu e fechou com o parceiro em US$ 16,71 (R$ 81).
"Encontraram uma maneira de driblar a redução da dívida contra o consumidor brasileiro, porque isso não deixa a tarifa cair como deveria", afirma Edvaldo Santana, ex-diretor da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica).
A conta para projetos e obras já vinha crescendo. Os presidentes Michel Temer e Bolsonaro anunciaram obras com impactos na região, mas Lula garante recursos inéditos. Segundo levantamento realizado pela consultoria PSR, uma das mais conceituadas do Brasil, os gastos com os chamados programas de responsabilidade socioambiental de Itaipu passaram de US$ 88,5 milhões (R$ 429 milhões), em 2013 para US$ 316,1 milhões (R$ 1,5 bilhão) no ano passado.
Agora, está em US$ 505 milhões (R$ 2,5 bilhões). Ou seja, o fato de a conta de luz não cair na proporção do custo da ex-dívida libera cerca de US$ 250 milhões (R$ 1,2 bilhão) para cada país bancar projetos de seus interesses.
"É um absurdo e ruim para sociedade como um todo que, finda a dívida, o consumidor do Brasil ainda seja obrigado a subsidiar obras. Qual o sentido de o dono de um freezer, num bar, no Rio de Janeiro, bancar na sua conta de luz uma estrada no Paraná ou Mato Grosso do Sul?", pergunta Rodrigo Ferreira, presidente da ABRACEEL (Associação dos Comercializadores de Energia), defensor do mercado livre de energia.
"Isso só está ocorrendo porque não há concorrência no setor para todo mundo, porque, se houvesse, o governo seria obrigado a oferecer a energia de Itaipu ao menor custo e não a manter entre as mais caras do Brasil."
Em nota, a assessoria da empresa de hidrelétrica afirma que "a missão de Itaipu, conforme consta no plano estratégico aprovado pelo conselho de administração, é gerar energia elétrica de qualidade, com responsabilidade social e ambiental, contribuindo para o desenvolvimento sustentável no Brasil e no Paraguai" e que todos os esforços se guiam por essa premissa.
Em relação ao que qualifica como "especulações políticas", a nota destaca que o foco da empresa é uma "postura neutra e alinhada com o plano do governo federal e os interesses da comunidade".
Reforça ainda que o diretor-geral não tem pretensões políticas. "Enio Verri está dedicando sua energia e foco aos projetos e atividades que visam o bem-estar da empresa". Afirma ainda que ele não tem planos de ingressar em disputas por cargos políticos.